O que a raiva não faz

Entender o que sentimos é importante. Viver por aí despejando emoções sem cuidado e sem enxergar o que está por trás delas, pode nos levar a caminhos contrários ao que estamos buscando. Veja, nossas emoções são também formas de comunicação. Formas essas cheias de informações sobre nossa maneira de se relacionar. Muito do que não conhecemos sobre nós pode ser melhor analisado através do que sentimos e os efeitos desses sentimentos em nosso corpo, nossos relacionamentos e nossa vida. 



Na teoria do apego, com um olhar no desenvolvimento de um vínculo saudável entre cuidadores e suas crianças, sentimentos como a raiva precisam de espaço e acolhimento. Para que assim a criança aprenda a lidar com a raiva de forma saudável. Mas o que isso significa exatamente? 

Significa observar e perceber qual é a melhor maneira para que você e sua criança aprendam a lidar com sentimentos difíceis ou desconfortáveis. Entendendo ainda que esse desconforto é aprendido e percebido de diferentes formas a depender do contexto cultural e social da criança. Outra grande diferença também se faz em relação ao gênero da criança. A maneira de expressar raiva entre meninos e meninas pode ser recebida de formas bem diferentes pelos seus cuidadores. E isso irá influenciar na educação emocional deles ao longo de suas vidas.

Outra perspectiva interessante é observar a raiva como forma de defesa e proteção, principalmente quando nos sentimos em perigo ou estamos em uma situação difícil. Usar essa força interior para se defender ou externar o que lhe incomoda é uma habilidade necessária e que deve ser aprendida. Contudo, lidar com a raiva de forma saudável é também dar espaço a ela sem ferir o outro e a si mesmo, sem julgamentos negativos, com respeito, com voz, com amor, ou até com “segundas chances”. Mas não necessariamente como um desabafo cruel e passageiro, seguido de culpa e medo. Um desabafo que nada soluciona e que pode causar arranhões na relação com o outro.

A perspectiva de Bert Hellinger - criador de um método sistêmico chamado Constelações Familiares - sobre a raiva me trouxe certo alívio. Incomodar-se com esse sentimento me parecia algo condenável de acordo com a teoria do apego (que defende seu acolhimento e aceitação). Porém, Hellinger esclarece a necessidade de se ver e lidar com as coisas como são e de assumir e perceber incômodos que, em sua maioria, estão sendo sentidos por você e pelo outro. Dessa forma, esses pontos de vista se complementam. E assim, o que você sente se torna o termômetro perfeito para compreender o que está acontecendo na relação, e esse sentimento precisa ganhar voz, lugar e ação ligada uma solução que beneficiará todos os envolvidos. A ação (ou falta dela), que machuca e reprime o que se sente, trará consequências negativas não só para você, mas também para aqueles ao seu redor. Se estiver atento ao que sente, muito provavelmente estará mais próximo de perceber a realidade que você e as pessoas que ama estão vivendo. 

Ainda na perspectiva de Hellinger, fala-se do perigo de pensar que se está processando uma raiva que pode, na verdade, não passar de fantasias e projeções. Essas fantasias (muitas vezes ideias fixas e sempre negativas) nos prende a um sentimento que nos paralisa, nos impedindo de agir em busca de soluções e de vocalizar o que realmente nos incomoda. Damos assim um passo para trás na relação com o outro, deixando de trabalhar problemas e incômodos, sufocando nossas necessidades emocionais e cultivando, por consequência, essa tal raiva que não se esvai depois dos desabafos e gritos. Acaba, pelo contrário, voltando à tona em um cotidiano cheio de “gatilhos” ligados à esse sentimento. Esses “gatilhos” são pequenas coisas que nos fazem sentir de novo que precisamos “explodir” e fazer o outro perceber que algo está errado. 
Contudo, a reflexão principal não é a de condenar emoções, mas compreender maneiras eficazes de lidar com elas e, principalmente, de comunicar ao outro o que você realmente sente. Mostrar “a poeira embaixo do tapete” e pedir ajuda para limpa-la de lá. 
Assim, podemos entender a raiva dentro de nós como uma não ação. Daí esse título: o que a raiva não faz. A raiva não te dá espaço para agir como você sente que precisa. A raiva sozinha te deixa empacado em um problema, obcecado com uma questão que nunca parece ter solução ou que sempre se repete na sua vida e relacionamentos. A raiva não te guia, ela te cega... de si e do outro. E ela com certeza não vai te levar aos seus objetivos e à realização dos seus sonhos. 
Pense em algo que te cause raiva. Algo pessoal ou ligado a uma relação próxima. O que você gostaria de obter através dessa raiva? Atenção, compressão, confiança, cuidado, apoio emocional? O que essa raiva grita? Consegue formular uma frase? Talvez algo do tipo: “Eu preciso que você me ajude!”; ou ainda: “Você precisa aprender a me ouvir!”; quem sabe até: “Por que não me ama como eu sou?”. Dar voz ao que sente é também uma valiosa prática de autoconhecimento, além de ser bastante terapêutico! 
Se cuide, se ouça, se perceba e continue crescendo! 

Com amor,
Renata Brügger.

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